Tá na Mão

March 8, 2008

Prece do Brasileiro

Filed under: Mensagens — admin @ 8:07 pm

Meu Deus, só me lembro de vós para pedir, mas de qualquer modo é sempre uma lembrança. Desculpai vosso filho, que se veste de humildade e esperança e vos suplica:
Olhai para o nordeste onde há fome, Senhor e desespero rodando nas estradas entre esqueletos e animais. Em Iguatu, Parambu, Baturité, Tauá (vogais tão fortes não chegam até Vós?) vede as espectrais procissão de braços estendidos, assaltos, sobressaltos, armazéns arrombados e - o que é pior- não tinham nada.

Fazei, Senhor, chover a chuva boa, aquela que florindo e reflorindo, soa qual cantata de Bach em vossa glória e dá vida ao boi, ao bode, á erva seca, ao pobre sertanejo destruído no que tem de mais doce e mais cruel: a terra esturricada sempre amada.

Fazei chover, Senhor, e já! NUMA CERTEIRA ORDEM ÁS NUVENS OU DESOBEDECEM A VOSSO MANDO AS REVOLTOSAS? TUDO É POIS CONTESTAÇÃO?

Fosse eu Vieira (o padre) e vos diria, malcriado, muitas e boas… mas sou vosso fã omisso, pecador, bem brasileiro. Comigo é na macia, no veludo, lã e, matreiro, rogo, não ao Senhor Deus dos Exércitos (Deus me livre) mas ao Deus que Bandeira, com carinho botou em verso: meu Jesus Cristinho.

E mudo até o tratamento: por que vós tão gravata e colarinho, tão vossa excelência? O você comunica muito mais e se agora, o trato por você, ficamos perto, vamos papeando como dois amigos bem leais, um, puro; o outro, aquela coisa, quase que maldito, mas amizade é isso mesmo: salta o vale, o muro, o abismo do infinito.

Meu querido Jesus, que é que há? Faz sentido deixar o Ceará sofrer em ciclo a mesma eterna pena? E você me responde suavemente: Escute, meu cronista meu cristão;essa cantiga é antiga e tão velha não entoa não.

Você tem a Sudene abrindo frentes de trabalho de emergência, antes fechadas.
Tem o Onu, que manda toneladas de pacotes á espera de haver fome.
Tudo está preparado para a cena dolorosamente repetida no palco . O mesmo drama toda vida.

No entanto, você sabe, você lê os jornais, vai ao cinema, até um livro de vez em quando lê. Em Israel, minha primeira pátria, (a segundo é a Bahia) desertos se transformam em jardins, em pomares, em fontes, em riquezas.

E não é por milagre: obra do homem e da tecnologia. Você, meu brasileiro, não acha que já é tempo de aprender e de atender aquela brava gente fugindo á caridade de ocasião e ao vício de esperar tudo na oração?

Jesus disse e sorriu. Fiquei calado. Fiquei, confesso, muito encabulado, mas pedir, pedir sempre ao bom amigo é balda que carrego aqui comigo.
Disfarcei e sorri. Pois é meu caro. Vamos mudar de assunto. Eu ia lhe falar noutro caso, mais sério, mais urgente.

Escute aqui ó irmãozinho. Meu coração, agora ta no méxico, batendo pelos músculo do Gérson, a unha de Tostão, a ronha de Pelé, a cuca de Zagalo, a calma de Leão e tudo mais que liga o meu país a uma bola no campo e uma taça de ouro.

Dê um jeito, meu velho, e faça que essa taça sem milagre ou com ele nos pertença para sempre, assim seja… Do contrário ficará a Nação tão malencônica, tão roubada em seu sonho e seu ardor, que nem sei como feche a minha crônica.
(Carlos Drumond de Andrade, jornal do Brasil, 30 de maio de 1970, caderno B, p.37)

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