Aos Adultos Brasileiros
Que queres, menino triste, que me paras no farol? Que sonho escuro viste, pois teus olhos não têm sol? Tua madrasta é a rua com seu cimento gelado. E, de noite, nem a lua te dá um olhar de trocado…
Quem te largou neste mundo, para catares esmolas? Se roubas, és vagabundo… Mas quem te roubou a escola? Quem te arrancou da mão o brinquedo e a esperança?
E quem te tirou, sem perdão, o direito de ser criança? Tua escola é a calçada, que freqüentas todo em trapos, se o dia não rende nada, logo apanhas uns sopapos.
Menino, no olhar me imploras muito mais do que um favor: querias que tuas horas fossem preenchidas de amor! Mas o que vês são carros, passam depressa, sem dó, os sorrisos te são raros, o Brasil te deixa só.
Minha poesia já chora: os meninos são milhões, será que as pessoas de agora perderam seus corações? Vá correndo, minha musa, pedir ao homem tão duro, que das riquezas abusa, que reparta seu futuro!
Poderá haver perdão, dize-me, Senhor Deus, para a megera nação que assim trata filhos seus? E a musa conclama alto, com resquícios de esperança: “Brasil, não jogues no asfalto a alma de uma criança!”
(Dora Incontri-São Paulo, Família Cristã; 1994).
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